MARIA ALTINA MARTINS - TAPEÇARIA CONTEMPORÂNEA

 
 

 

PÁTRIA MUNDO
Tapeçarias de Maria Altina Martins

Maria Altina prepara há sete anos o projecto que se apresenta, o qual teve como objectivo realizar uma série de tapeçarias em redor de um tema, Pátria Mundo, com o desejo de criar, ou melhor, recriar uma tenture. A tenture é a designação usada nas Manufacturas de Gobelins, Aubusson e Beauvais, para nomear um conjunto de tapeçarias de carácter narrativo.
Estas narrativas incluíam temáticas sagradas relativas a histórias bíblicas, episódios das mitologias clássicas ou lendas de carácter religioso ou profano.
Estas séries, normalmente provenientes de encomendas reais, aristocráticas ou eclesiais destinavam-se à decoração de castelos, paços, palácios, igrejas ou mosteiros, servindo para revestir e adornar as paredes destas nuas e frias mansões.

Maria Altina Martins preocupou-se em conceber e estruturar uma tenture ou armação com idêntica intenção à das tapeçarias de antanho mas numa expressão contemporânea. Pátria Mundo constitui assim um políptico de 22 tapeçarias organizado segundo um esquema que obedece, por um lado, a uma simbólica interpretação da epopeia dos Descobrimentos e, por outro, à realização de qualquer conquista pessoal de carácter ascencional com uma finalidade estético-espiritual.

As tapeçarias são executadas em diversificadas técnicas e dimensões numa tentativa de, integrando a memória e a modernidade, tecer composições cuja textura, ritmo, cor e forma traduzam os conceitos e as ideias que Maria Altina Martins deseja transmitir. A armação imaginada pela artista não se rege, portanto, pelos cânones clássicos, constituindo uma interpretação livre.
O conjunto, corresponde à consagrada vocação parietal das tapeçarias, mas não se resume nem se circunscreve à função ornamental e mural. Algumas das obras, mantendo todavia o carácter planificado, foram concebidas para definir espaços e marcar perspectivas, conduzindo o olhar do espectador para o entendimento do significado de cada um dos sub-temas. Outras há, cuja intencionalidade se exprime através da tridimensionalidade, ocupando o centro de um espaço, invertendo assim o carácter periférico das tapeçarias tradicionais. Outras há ainda, que se dispõem longitudinalmente, organizando-se de forma sequencial. As tapeçarias desta armação evocam um caminho ou um percurso iniciático que, umas vezes assenta na figuração e outras, na abstração.

A tenture compreende uma ordenação que prefigura uma epopeia em que se assinala o ponto de partida e o ponto de chegada e que é constituída por tapeçarias que evocam os passos e os encontros e desencontros de uma epopeia. As referências literárias desta armação ligam-se a Os Lusíadas de Camões, à Mensagem de Fernando Pessoa e a Pátria Minha de António Barahona. Isto não significa que este conjunto de tapeçarias não contenha implicitamente alusões à presença feminina nos acontecimentos relativos à história da expansão, do mesmo modo que evoca simbólica e liricamente a mulher, na figuração da Dinamene como momento exaltante de paixão e tragédia. Como foi referido inicialmente não se pode aqui negligenciar o percurso interior da própria artista, as suas aspirações, os sofrimentos e a experiência pessoal.

Relativamente à manufactura há a detectar que as teias são sempre executadas em algodão e que a trama foi sendo tecida nos mais diversos materiais sugeridos pelos próprios sub-temas e pela interpretação descritiva e simbólica dos mesmos. Deste modo, Maria Altina integra nas tapeçarias insólitas presenças de pendor surrealista de raiz duchampiana como socas, tamancas, patins ou pegas de pá, mas também elementos naturais como pedras, crinas e cabelos bem como fibras naturais como a lã, a seda e o linho, fiado manualmente, e ainda metais nobres, como a prata e o ouro, acrescidos de diversas pedras semi-preciosas.

No tocante à técnica utilizada, Maria Altina Martins deu preferência ao ponto básico da tecelagem, o tafetá, conduzindo o cruzamento binário dos fios para os diversificados efeitos com os quais este ponto é explorado na Manufactura de Gobelins. A esta execução não é alheia, o facto desta artista ter realizado um estágio de quatro meses nesta célebre e secular Manufactura. Todavia, a sua interpretação é visualmente livre pois, também veicula o carácter experimental inerente à tapeçaria contemporânea.

As cores dominantes desta tenture são o azul dos oceanos, o vermelho do fogo, o castanho da terra e o branco das velas. Esta tetralogia mantém ainda uma relação umbilical com as raízes medievais da tapeçaria, nomeadamente a tenture de La Dame à la Licorne que foi concebida e executada com as três primárias: o vermelho (magenta), o amarelo e o azul (cião). Não se tratou pois de repetir o esquema clássico mas de desenvolver uma paleta própria numa trilogia de cores, acrescida do valor branco, de forma a criar harmonias tonais onde a discrepância cromática pudesse ser introduzida sem retirar rigor à policromia que Maria Altina Martins estabeleceu desde o início deste projecto.

Existem no âmbito desta tetralogia cromática gamas de tonalidades e escalas de valores polícromos consonantes e dissonantes que se organizam para transmitir as emoções, os desejos e os anseios da artista.

O plano da obra segue uma sequência de posturas que correspondem a fases de um projecto de vida que contêm uma unidade perspectivada num cometimento sócio-cultural em que se podem detectar claras alusões aos poetas atrás referidos, a factos históricos, a mitos da cultura portuguesa e a ideias-símbolos de uma dramaturgia pessoal, razões porque o plano da obra está estruturado em 7 partes:

A primeira integra os elementos naturais AR e ÀGUA e o modo como foi escolhida a partida, À VELA. Seguidamente expõe a decisão de partir com a IDA e o obstáculo ocorrido no percurso da viagem, o ADAMASTOR.

A segunda parte é dominada pelo encontro amoroso, a DINAMENE tendo como complemento o seu trágico final, AS CHAGAS.

A terceira parte inclui a realidade social no POVO e a realidade histórico-cultural dos SÉCULOS, a que se segue a confessional contemporaneadade, na tapeçaria designada como COR-TINA que integra a palavra Cor e Tina (abreviatura de Altina).

A quinta parte inclui a travessia, VIAJOR e as idades do homem, TEMPO através de três composições que versam a exploração da infância, da adolescência e da maturidade. A sexta parte é dedicada aos navegadores, A ROSA DOS VENTOS e o SÍMBOLO e o MITO e à alegoria ao exótico, A CAUSA E O MEIO mas também à descoberta da riqueza, PAU-BRASIL, à arte de marear, BÚSSOLA; ao desejo de aventura, OLHO DE TIGRE e à expansão territorial HORIZONTE. Finalmente, a PULSEIRA constitui uma amálgama de desejos de elos e de círculos culturais, a que se segue A COTA DE MALHA referente à conquista e à luta.

A sétima parte evoca a grande aspiração e a grande incógnita, INFINITO que, para Maria Altina, inclui a grande meta a atingir, o não-fim dos fins.

O Museu Nacional do Traje tem o maior gosto em apresentar esta exposição de tapeçarias que integra um conjunto têxtil políptico, narrador das viagens marítimas e interiores. Com intenção épica, crê-se que esta mostra venha a constituir um marco histórico na evolução da tapeçaria experimental no nosso país.

Madalena Braz Teixeira
Directora do Museu Nacional do Traje

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